Deitei-me na cama e lamentei. Lamentei pelos dias, semanas, meses, anos, que passam, e nós nem vemos, e, quando vemos, já é tarde demais. Já não são as mesmas pessoas, os mesmos sentimentos, os mesmos sabores. Quando vemos, está tudo acabado. Lamentei por tudo o que acabou, mas não deveria ter tido um fim; por tudo o que morreu lá fora, mas continua vivo dentro de mim. Lamentei pelos textos que escrevi e não fui capaz de deixá-los penetrar noutros corações que, talvez, guardassem uma dor tão grande quanto a minha. Lamentei por lamentar tanto; lamentar tudo. Toda esta lamentação tem-me feito mal. Tudo, ultimamente, tem sido um motivo para me deixar em prantos, fazer-me chorar, deplorar, lastimar. Não sei se estou mais vulnerável, ou o mundo está mais agressivo. Se perdi a armadura, ou o mundo fortaleceu as suas armas. Se o escudo que estava à minha volta se desfez, ou o mundo aprendeu a atravessá-lo. Para falar a verdade, acho que o mundo, enfim, percebeu que, por trás de uma falsa protecção, há uma pessoa que lamenta a própria existência.
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